Um dia fomos todos crianças, pequenos seres inconscientes mas felizes, em que pensamos que o mundo é comida na mesa, brinquedos cheios de cores e risadas com amigos até ao dia ficar escuro e sem luz.
A internet foi um meio, que na minha adolescência, quando mais novo do que sou agora, estava em passos largos de desenvolvimento. Ter um computador foi algo que me ajudou a perceber o que queria fazer da minha vida quando fosse adulto, o que me ajudou a ter um objectivo claro e conciso do que queria quando fosse para a faculdade, que era ser "um simples técnico de computadores".
A descoberta digital cativou-me muito e então, com a internet, as coisas tornaram-se mais acessíveis e simples de se poder aprender e conhecer melhor mundos desconhecidos e cheios de dúvidas. Fiz muito conhecimentos a volta de 0 e 1's que hoje são mais do que as pessoas todas que existem no nosso pequeno planeta azulado.
Uma coisa que ajudou foi o contacto com outras pessoas. A facilidade com que nos podíamos relacionar com outros seres humanos, tornou-se arrepiante mas de certa forma cativante, porque de certa forma, era uma miúdo cheio de coisas e ideias que não podia contar a ninguém naquela altura.
Os chat's são os sítios mais imundos e perigosos que tínhamos na altura, e ainda hoje são meios que se podem tornar um perigo para os mais ingénuos. Sinceramente, no momento, não pensava nesses pequenos pormenores de segurança, mas mesmo assim não me deixava de sentir seguro. Afinal, quem me podia fazer mal?
Nesse mundo virtual em que era um simples recém nascido, conheci alguém perto, com uma idade igual à minha, com um discurso simples mas tão divertido. Facilmente passávamos horas e horas ao computador, sendo cada dia um desafio cada vez maior conversar com ele.
Cada dia, era já ritual, ligar o computador à aquela hora e de seguida, ligar o chat para entrar novamente no meu mundo virtual. Ali, refugiava me, eu e o meu novo amigo. Cada hora e minuto era tão facilmente queimado com conversas síncronas e sem fim, onde nos riamos de cada coisas nova que a vida nos oferecia e que ambos íamos saboreando juntos como se fossemos ambos seres de um mundo real.
Entre fotografias e conversas video, fomos conquistando cada vez mais terreno. Por vezes, nem nos dava conta de que o relógio estava a contar as suas horas. Deixava-mos divagar nos pensamentos futurismos onde planeávamos encontros em sítios onde eu não conhecia mas que para ele faziam todo o sentido. Afinal, o sitio não era importante O que importava, era a presença e o abraço que todos os dias ficava prometido em cada final de conversa.
Ingenuamente, deixei-me cativar pelas promessas de alguém que me fazia apaixonar em cada palavra que dizia.
Havia dias, em que não aparecia. Ficava a espera toda a noite e o quanto mais possivel para que visse a sua fotografia aparecer naquele som estridente que fazia. Ansiava que acabasse as aulas para poder voltar a casa e começar outra vez a contar tudo o que acontecia comigo.
Mas chegou o dia: o dia em que ele não aparece mais, em que tudo ficou escuro. Não desisti, porque sei que aquilo não foi em vão. Lutei por estar aqui, no sitio onde ele prometeu estar, para me abraçar, beijar e dizer aquilo que sempre me disse.
Passei por todos os sítios onde me prometeu estar. Revivi sempre e espero ainda hoje, pelo café no Jardim perto do Rio, do jantar maluco, do abraço tímido e do "gosto muito de ti".
Hoje, sou técnico informático e estou a viver na sua cidade. Porquê? Porque a esperança de um dia o ver, sentir e de pelo menos uma vez o dizer que o amor perdoa tudo na vida.
para ti, com esperança, D.A.
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