Todos nós pensamos como podemos sempre ver mais e melhor.
Protegemos os nossos olhos todos os dias, pestanejando milhares de vezes por dia, amparando todos os defeitos com as pequenas pestanas que circundam a nossa pequena entrada para a nossa alma. Abertos, conseguimos ver as coisas mais lindas do mundo e deixamo-nos maravilhar por aquele pôr de sol, pela aquela água que corre, pelo casal que apaixonadamente se toca ou simplesmente pelo gesto carinhoso de um beijo doce e tímido de um casal que ali passava.
É tão bom termos os olhos para ver estas coisas...
Mas os olhos são só a entrada para algo mais lindo e maravilhoso. Por alguma razão diz-se que são o espelho de algo mais profundo e incompreensível, algo tão complexo mas ao mesmo tempo tão simples e tão genuíno: a nossa alma.
Todos os dias deixamos que os nossos olhos sejam inundados com vários sentimentos, onde todos os dias ficamos cada vez mais cegos e aos poucos deixámos que a nossa alma se deixe maravilhar e confundir a perfeição de uma toque, de um beijo ou de uma carícia. Fechamos a nossa alma para que simplesmente a nossa ganância deixe-se encantar por um belo resto que ali passava, ou por um belo corpo que ali pousava. Aos poucos deixamos a nossa alma adormecer, para que o encantamento do proibido e do fácil seja uma canção popular dentro de nós. Enchemo-nos de tentações fúteis de belezas exteriores e deixamos que ela embale o nosso coração pelo que é tão visível mas ao mesmo tempo tão enganador.
Os nossos olhos aqui cegaram: já não conseguem ver o que é o bom e o mal apenas conseguimos ver o que é o bonito e não o belo, o que é o mais prático e não o mais alcançável e somos levados pelos caminhadas do facilitismo, do que é mais fácil alcançar.
Perdemos o sentido de ver: de olhar para o que nos aflige, pelo que é feito no oculto, onde quase ninguém consegue ver, porque simplesmente desviamos o olhar para aquilo que é palpável.
Ver, não é isto. Ver é bem mais fundo do que simplesmente descrever o que se observar, é sentir o que se observa. É olhar um beijo e sentir que há amor, é ver a tristeza e desprender uma lágrima, é olhar uma pessoa e ver como ela é num tudo. É estar ao lado de alguém e ver que ela está triste mesmo sem ele chorar, é saber que aquela sorriso é apenas um disfarce singelo da sua mágoa. Mas acima de tudo é ver o que há para além do que se vê.
Porque é nos olhos que todos nós podemos ver a alma de alguém, mas acima de tudo é com os olhos que realmente vemos alguém e que vemos o seu coração.
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